08/03/2002

Evandro Carlos de Andrade (02/03/2000)

Em julho de 2000, Evandro Carlos de Andrade completou cinco anos à frente da Central Globo de Jornalismo. Antes, trabalhou por 24 anos como diretor de Redação do jornal O Globo. Nesta entrevista ele faz um balanço de sua vida profissional, analisa a Política e conta detalhes de sua vida de "estudante bagunceiro". Carioca do bairro do Maracanã, flamenguista, 68 de idade, dois casamentos, seis filhos e nove netos, Evandro é considerado o mais influente jornalista de sua geração.

Dele se diz que é uma personalidade autoritária, obsessiva e implacável, mas também gentil e cortês. Não recusou qualquer assunto ou pergunta -- das quais não teve conhecimento prévio.
Foram quatro horas de entrevistas gravadas em duas sessões, em sua sala na sede da TV Globo no Rio de Janeiro. Leia também depoimentos sobre Evandro e um texto seu (uma simples, porém ácida carta).




P - Depois desses cinco anos de televisão, já se poderia dizer que você conhece o processo de edição deste veículo tanto quanto conhecia o de jornais?

R - Não. Aliás, quando trabalhava em jornal, raríssimas vezes desci às oficinas, inclusive do Globo. Tenho uma boa noção geral do processo, e conto sempre com uma excelente equipe.

P - Sente falta das "pretinhas", de escrever o seu texto?

R - Não sinto falta. Escrevo quando sinto necessidade de escrever, só; não é um imperativo orgânico...Mais jovem, sim, eu tinha a ilusão de que seria escritor - gostava de escrever, antes de tudo.

P - Influência familiar? Algum escritor ou jornalista em casa?

R - Não. Havia um tio, meu padrinho - médico homeopata, mas que não exercia porque era esquizofrênico e tinha consciência disso -, que lia em casa o tempo todo, era um homem muito culto. Lia muito e conversava comigo, foi a grande influência cultural que tive na infância. Ele tinha um quarto só de livros e só ele podia entrar ali. Eu lia muito histórias em quadrinhos, o Gibi, o Globo Juvenil, Mirim...

P - Ainda existe a casa da Rua São Francisco Xavier 352, no Maracanã, onde você nasceu?

R - Não, infelizmente com a falta de preocupação histórica as pessoas destruíram esse monumento (risos). Nossa família vendeu a casa após a morte da minha avó.

P - Quem retrata muito bem a cultura daquela região do Rio é o Aldir Blanc. Você se identifica com as suas letras?

R - Totalmente, sou cidadão do Maracanã.

A minha região vai do Largo da Segunda-Feira, ou seja, o Engenho Velho até o Largo do Maracanã; depois ela avança pelas ruas Visconde de Itamarati, Santa Luzia, Dona Zulmira e Vinte e Oito de Setembro, nos seguintes rumos: Praça Saens Peña, um pouco de Andaraí até a praça Barão de Drumond, que conhecia como Praça Sete.

P - Até quando você morou lá?

R - Até os meus 18 anos. O Aldir Blanc expressa o sentimento daquela região para as pessoas da minha geração, assim como o Noel Rosa era a expressão da Vila dos meus tios, irmãos da minha mãe. Eu imagino o Aldir Blanc mais do jeito que eu fui, mais fã-club, curtindo Dick Farney, a Orquestra do Glenn Miller, Frank Sinatra, enquanto meus tios eram do samba do Noel, aquela cultura da boemia, da coisa mais fechada no próprio bairro. Aliás, não sei porque a associação de idéias, mas você sabia que o Cartola foi meu contínuo no Diário Carioca? (sorrisos)

P - E como ele era, no convívio pessoal?

R - Perfeito: modesto, sempre gentil, bem-humorado, ganhando aquela porcaria. Você imagina como era o mundo da arte popular, da música popular, antes do surgimento da televisão? O rádio já existia mas não produzia estes sucessos financeiros. Isto se refletia na qualidade de vida dos artistas, que viviam e morriam miseravelmente. Um talento como Cartola, um clássico... a gente sente vergonha.

P - Falando em música, dizem que você conheceu a sua atual esposa num karaokê. Mas, quem cantava?

R - Eu a conheci num concurso de karaokê em que fui jurado e ela concorrente. Dei nota seis a ela, embora merecesse mais. Eu sempre sou rigoroso com as pessoas de quem gosto (risos).

P - Vamos voltar um pouquinho à sua história: é verdade que depois da venda do colégio a família enfrentou uma crise e sua mãe teve de abrir uma floricultura?

R - Com a morte da minha avó houve uma natural tendência dos filhos à dispersão. Eram nove os meus tios, irmãos da minha mãe. Oito deles girando em torno do ginásio Vera Cruz, depois Colégio Vera Cruz, fundado pelo meu avô.

P - Você também estudou lá?

R - Eu nasci e fui criado no Vera Cruz. Com a venda, os meus tios quiseram seguir cada um o seu caminho. O mais velho de todos, tio Paulo, era casado com uma mulher rica e passou a trabalhar no hotel que pertencia à família do sogro dele. E havia o caçula de todos, o tio Cláudio, que era dentista. Os demais giravam em torno do Vera Cruz. O líder era o Eugênio, professor de matemática e que resolveu ir à luta. Venderam o colégio e a marca Vera Cruz para Francisco da Gama Lima, na Haddock Lobo. O prédio da Rua São Francisco Xavier foi vendido para o Senac.

P - Onde você completou os seus estudos?

R - Terminei o ano de 1945 no Santo Inácio. No ano seguinte minha mãe resolveu me internar no Pedro II, pelas mesmas razões econômicas...São crises. No Santo Inácio, eu era bagunceiro e eles me achavam um jeca! Vila Isabel, para eles, era inacreditável! Mas houve um momento em que resolvi mostrar do que era capaz: em um mês fui o primeiro da turma. Mas foi só um mês. O Paulo Francis, que era da minha turma, registrou nas memórias dele esse aspecto que me distinguia - da bagunça, claro.

P - Era o Pedro II de Botafogo ou o de São Cristóvão?

R - Prédio antigo de São Cristóvão, inaugurado pelo próprio Pedro II e que desapareceu num incêndio. No dia que eu li as memórias do Pedro Nava, vi que alguns dos inspetores de alunos em 1946 eram os mesmos do tempo dele, na década de 20.

P - Meu pai também estudou lá, e gostava muito.

R - Eu não gostei, eu odiava a idéia de ser interno! A primeira noite, aquele dormitório, a cama colada no canto, aquelas janelas abertas, a gente ouvindo músicas no rádio do vizinho distante. Uma tristeza incrível que me deu, eu nunca me enturmei, nunca me senti bem, as instalações eram horrorosas, imundas, a comida era muito pobre, o ensino era uma droga...

P - Mas por que tão ruim assim?

R - Pegue por exemplo o professor de Geografia, Honório Silvestre - nesta altura tinha quase perto de 70 anos - o exemplo de como não se ensinar. Ele entrava na sala e ordenava: "Escrevam" e ditava a aula inteirinha, ou seja, ele na verdade só queria o silêncio daqueles alunos. Era catedrático...

P - E você já tinha esse temperamento de hoje? Como se comportava?

R - Eu era muito indisciplinado, fugia toda noite - eu e mais uns dois ou três - e não era punido. Faltava para ir ao cinema. Sempre detestei e fui reprovado. Tinha que ser reprovado em 46. Voltei para o Vera Cruz, para repetir a quarta série e completar o científico.

P - E a floricultura?

R - Nesta altura minha mãe abriu uma loja de flores inaugurando um edifício na rua das Laranjeiras - onde fica atualmente um mercadinho, na esquina da Cardoso Júnior. Mais tarde a loja foi transferida para a Av. Nossa Senhora de Copacabana, onde hoje acho que fica a Caixa Econômica, entre a Constante Ramos e Barão de Ipanema.

P - O que você fazia, lá?

R - Eu ajudava nas entregas, ou cuidava da caixa.

P - E depois?

R - Durante dois anos eu fui vagabundo em Paquetá. Tinha uma ligação muito forte com Paquetá através de um tio, que tinha uma casa em frente ao canhão da Praia dos Tamoios. E o vizinho dele, cuja casa era maravilhosa, tinha ido para São Paulo acompanhar um dos filhos e aquela casa se transformou em república. Os vagabundos que ficaram ali eram intelectuais, ouviam e discutiam música, foi onde me afeiçoei à boa música - eram sinfonias, óperas... Mas no fim de 1951 eu fui trabalhar no hotel Novo Mundo, no Flamengo, por exigência da minha mãe.

P - Você era "adicionista" - o que significa isto? E como um jornalista e escritor vai trabalhar com números?

R - Eu nunca tive dificuldade com números, ao contrário. E quando encasquetava com uma certa coisa eu me saía bem.

P - Você tem fotos ou documentos dessa época?

R - Não guardo absolutamente nada porque não acho que mereça ser guardado.

P - (cara de descrença)

R - Isto é a coisa mais sincera...

P - Está bem, voltemos aos números.

R - Estava no hotel como adicionista, trabalhava na contabilidade, era o cara que fazia lançamentos das despesas, não tinha computador e ia muito bem lá. Até que tive uma indisposição com meu tio: fazendo as contas, vi que estava sendo roubado (o hotel). Denunciei, e como ao fim de dois meses nada aconteceu, eu me senti desmoralizado, fazendo papel de bobo. Fui trabalhar no Plaza Copacabana Hotel, recém-inaugurado, posto de subgerente, até ir para o Diário Carioca.

P - Qual foi sua primeira experiência em Jornal?

R - No Correio Radical, um pequeno pasquim... resultado da fusão do jornal O Radical com o Correio da Noite, era propriedade de George Galvão. Era um jornal ordinário, de polícia, chantagista, para tomar dinheiro de bicheiro. Eu queria fazer uma experiência no jornal, mas sonhava ser escritor; e minha mãe conhecia alguma pessoa que tinha acesso a esse George Galvão e ela pediu. Eu fui lá ser foca e fiquei apenas dois meses. Fui ser foca de polícia nesse jornal, num sobrado na Rua da Quitanda. Houve uma greve, participei, acabaram me mandando embora - isto foi em 53.

P - E como entrou no Diário Carioca, que era uma verdadeira usina de talentos?

R - Através do Renato Portela, que fazia as palavras cruzadas do jornal e que se tornara meu amigo. Ele sabia do meu desejo e falou com o Luiz Paulistano que era o chefe de reportagem. Tornei-me logo o foca preferido do Paulistano. Ele tinha um Fusca de terceira mão, importado, porque só havia importados, e morava na Penha, numa casa modesta, era casado, tinha dois filhos, não passava sem um cachacinha...
Eu pensava: se nesta profissão tudo der certo para mim eu vou acabar chefe de reportagem, tendo uma casa na Penha e um Fusca - sem beber cachaça, nunca apreciei, não sou do ramo. Aquilo para mim era uma perspectiva de vida...

P - Era impossível, na época, imaginar que você chegaria aonde chegou, não é?

R - Eu nunca discuti meu futuro comigo mesmo, nunca disse "eu quero atingir tal cargo", ou "desejo tal cargo"; as pessoas podem duvidar, mas nunca me passou pela cabeça que eu seria convidado para nenhum dos cargos que acabei ocupando. Em alguns casos eu fiquei bestificado, como ao ser chamado para chefe de redação do Diário Carioca. Estava no Egito, cobrindo a guerra no Canal de Suez. Tinha 24 anos e o Pompeu de Souza me chamou por telefone para ser o substituto dele.

P - Quem trabalhava por lá nessa época?

R – Carlos Castello Branco, Armando Nogueira, Prudente de Moraes Neto, Gilson Campos, Carlos Alberto Tenório, Maneco Muller, Epitácio Timbaúba, Mariano Junior, José Ramos Tinhorão, Otávio Bonfim, Jota Efegê, Rui Duarte, Aparecido Baioneta da Silva... E os cronistas eram Sergio Porto, Antonio Maria, Paulo Mendes Campos...

P - Vamos dar uma pausa e falar um pouco sobre sua carreira como repórter político, amigo e interino do Carlos Castelo Branco.

R - Depois do suicídio do Getúlio, eu fiz a cobertura da campanha de Juscelino Kubitchek (JK) - uma figura maravilhosa, um democrata absoluto, construtor e criador, entusiasta...

P - Era um talento natural? Como foi a história da construção de Brasília?

R - JK organizou uma equipe para ser um presidente construtor! Tinha um programa de governo consistente, baseado no trinômio transporte, alimentação, energia, mas não dava ênfase à Educação: nomeou para ministro seu ex-vice governador, Clóvis Salgado, figura política apagada e que em nada contribuiu para o progresso da Educação. Depois de Capanema, na ditadura Vargas, só recentemente se consolidou a noção de que a Educação é o principal fator de desenvolvimento.

P - Qual seria, então, o outro presidente brasileiro da sua geração que se podia ombrear com Juscelino?

R - Pelo espírito democrático, José Sarney e Fernando Henrique. No espírito empreendedor, nenhum como JK! Ele não tinha medo de nada, peitava, corria riscos... Fez campanha e tomou posse sob vetos e ameaças dos militares! Como estadista, Castelo Branco, general de espírito democrático, capaz de arrancar o Brasil do lamaçal em que bracejava em 1964. Apesar de ser militar...

P -Você acredita que JK foi assassinado?

R - Não! (enfático). O motorista, o Geraldo, estava muito velho, deve ter dormido no volante...Já eu acho que a Zuzu (Angel) foi assassinada. Mas ele não, ele não ameaçava mais nada, eles não tinham razão para ter ódio de JK! Ele só foi cassado porque teimou de ser candidato a presidente em 65 e aí criou um impasse para o Castelo Branco.

P - Essa questão da Educação, como você a colocou, é muito complicada e leva gerações...

R - Isto é trabalho para 20 anos, no mínimo. O Brasil tem condições de investir (em educação). A minha convicção é a seguinte: só a observação e o invento transformam o homem. A religião, a arte, consolam o nosso desespero por nos sabermos mortais, mas só o conhecimento é que muda a nossa espécie ao longo da História. Para ser competitivo você é obrigado a ter um sistema educacional muito bem organizado, que generalize esse conhecimento. Não sendo assim, tudo se resume ao comer e estar vivo, e você só vive do que mata...

P - Mas que filosofia mais pessimista, Evandro!

R - Pessimista por quê? Isto é fundamental: você mata para viver. Você vive de quê? Qual é o mineral que te alimenta? Granito, areia, pedras preciosas? Vegetal, você não matou?

P - Não que eu saiba...

R - Ah, você não matou? Ora, a vida se reproduz através da vida e por isso a vida é necessariamente cruel, ela só evolui por meio da destruição do mais fraco, ela é seletiva. Na democracia, o sistema de mérito, por exemplo, é muito justo; existem dez vagas, concorrem mil sujeitos. Os melhores vão ganhar bem, ter casa confortável, carro, e os outros vão gramar a sua mediocridade. Me explica então por que um sujeito burro, que nasceu com insuficiência de neurônios e lapsos de sinapse, vai ser menos bem aquinhoado dos prazeres da vida do que o outro, mais bem dotado pela natureza. É porque a vida é cruel, ela quer a eliminação do mais fraco. E por isso todo mundo acha justo premiar (ou castigar) a diferença.

P - Mas nos EUA há pelo menos igualdade de oportunidades...

R - Aqui também há igualdade de oportunidade nos muitos níveis em que a sociedade se organiza - ou você acha que o traficante não está usando as oportunidades dele? O forte vai realizar do seu jeito, através da inteligência, esperteza, maldade - o que seja. Isto é um jogo bruto o tempo todo...

P - A propósito, há quem o considere duro, violento, obsessivo, implacável, além de fidalgo, cortês etc. Como você se classifica?

R - Eu sou a favor do Poder exercido com autoridade! Porém, para haver equilíbrio, é indispensável a liberdade de imprensa. Liberdade é o bem maior de todos, porque ela permite que o tempo todo você avance; não se avança sem liberdade. A prova é que os regimes ditatoriais no Brasil, depois de um salto inicial de desenvolvimento, estagnaram na repressão e na auto-satisfação esterilizante. Esses saltos de desenvolvimento se deram ao custo da truculência, da privação da liberdade e da corrupção. Ela é (a corrupção) uma das condições humanas e é a cobiça assegurada pelo conforto da censura que leva o homem a ceder à tentação do conforto ilegítimo.

P - Voltando ao seu temperamento...

R - Eu me acho duro, severo no exercício da minha atividade profissional, porque eu tenho que ser. Eu não tenho espírito de turma, não tenho grupo de amigos, profissionais que eu proteja; eu nunca toleraria formação de igrejinha, de grupinho no lugar que eu trabalhasse! Eu trabalho voltado exclusivamente para o bom resultado!

P - Você foi repórter político, colunista, cobriu o Congresso... e no entanto se confessa um aristocrata no sentido platônico do termo, o governo dos melhores...

R - Eu não acredito em regime representativo. Acho o Congresso um fator de estagnação, um Poder conservador, reacionário por natureza. A profissionalização do político é ruim para a sociedade e para a democracia - ele passa a ser um condômino daquilo e não é mais representante do povo. Defendo o regime dos melhores. O voto obrigatório e massivo degradou a qualidade do Congresso. O voto facultativo ajudaria a melhorar a representação, porque só votaria quem tivesse consciência de sua cidadania... E ninguém deveria profissionalizar-se como deputado, vereador, presidente. Dois mandatos no máximo - e volta pro trabalho, meu caro!

P - Você já se imaginou na política partidária?

R - Eu seria um péssimo político, mas estaria num partido democrata, sempre defendendo a liberdade - o bem principal. Eu era contra a ditadura militar, contra o primarismo com que se exerceu o poder... O Getúlio foi melhor que os militares por uma razão: o governo Getúlio, no período da ditadura, foi um governo civil. Sustentado pelo Exército, mas era civil. O exército é uma instituição mediocrizante, o sujeito é só obediência, a carreira dele é feita para crer em valores que bloqueiam, como o patriotismo, e sobretudo a obediência cega, às vezes humilhante.

P - Você não livra nem o Presidente Castelo Branco?

R - O Castelo era uma exceção dentro das Forças Armadas, ele era um intelectual e um democrata preocupado com a democracia. A visão de democracia de Geisel era completamente diferente, sem falar no Figueiredo...Como foi possível que se entregasse a essa gente um país como o Brasil? O Castelo era um estadista, ele e o Getúlio foram os dois maiores e com o JK o trio de ouro no exercício da política no Brasil.

P - Continuo insistindo: e o Fernando Henrique?

R - Para mim, é o Getúlio da ditadura, o Castelo Branco e o JK. Todos tiveram de fazer concessões, porque é impossível governar sem tampar o nariz - é impossível, no regime democrata. Agora, pode anotar: o futuro dirá que o maior reformador do Brasil terá sido o Fernando Henrique. É difícil avaliar, no curso de um mandato, o resultado. Mas quem fizer a análise, mais tarde, desta época incrivelmente turbulenta no mundo todo, parecida com tempo de guerra, dará o devido crédito ao Fernando Henrique. Não é comum, em nenhum lugar do mundo, que o poder seja ocupado por alguém tão preparado como ele.

P - Examinemos os políticos atuais: Antônio Carlos Magalhães, por exemplo?

Antônio Carlos Magalhães nas circunstâncias do Brasil é um grande político, porque tem uma extraordinária percepção do sentimento do povo. Ele, na Bahia, como o Sarney, no Maranhão, andam na rua sem segurança. ACM é hábil, sabe até onde vai, não ultrapassa o ponto, tenta ocupar todo o espaço que estiver disponível. Indiscutivelmente um grande político!

P - Dizem que ele orienta a pauta, recomenda notícias...

R – Se se refere à TV Globo, isso é apenas uma piada de mau gosto. A palavra "recomendação" nunca foi pronunciada para mim pelo Roberto Irineu, nem pelo João Roberto, ou José Roberto na prática meus diretores. A única orientação que recebi foi a de fazer um jornalismo respeitável, isento, imparcial, objetivo, exato, urgente, respeitando a lei, o direito das pessoas, as testemunhas, as vítimas, isto é a única razão da minha vinda para cá - foi nestes termos e foi para sinalizar isto mesmo! Se é assim com quem me emprega, chega a ser ridículo imaginar que eu pudesse receber recomendação de qualquer estranho ao meu trabalho.

P - Há gente honesta, escrevendo sobre televisão?

R - O Ivan Ângelo é uma camarada honesto. O Estadão procura ser isento. O Gabriel Priolli implica com o nosso jornalismo, o que o torna um pouco parcial, mas merece respeito. Já na Folha (de S.Paulo) não há ninguém. O Otavinho não permite. Fui recebido por ele gentilmente, numa visita que fiz ao jornal, quando estava no Globo. Mas eu sei, porque tenho informação de dentro do Conselho Editorial, que a ordem lá é perseguir a Globo, mesmo que seja com injustiças e mentiras.

P - Em que medida os anunciantes de remédios podem influenciar os rumos editoriais, no atual escândalo dos genéricos?

R - Não temos interesse comercial nenhum a defender - não queremos saber quem são nosso anunciantes, isto não nos interessa. Só queremos saber o seguinte: se similares ou genéricos forem bons para o nosso telespectador, se a relação de preço for boa e os remédios reconhecidos pela entidade oficial, nós vamos dizer isso persistentemente. Nós vamos alertar o nosso telespectador. Para nós, a diferença entre similares e genéricos é burocrática, pura e simplesmente porque a Vigilância Sanitária declarou bons tanto os similares que estão à venda quanto os genéricos. Logo, tanto faz se é similar ou genérico, porque nós não vamos alterar coisa nenhuma na maneira como tratamos desse assunto.

P - Gostaria de saber exatamente a história de sua indicação para o cargo de diretor do Globo pelo José Luís Magalhães Lins.

R - Eu era assessor de imprensa do Jânio Quadros quando ele renunciou. Fiquei em Brasília pelo Estadão, a convite do Fernando Pedreira. Era repórter político e em 66 ele veio para o Rio para ser diretor e me indicou para ser diretor lá. Fiquei como diretor do Estadão em Brasília de 66 a novembro de 71. O José Luís era concunhado do Pedreira, porque a Vivi Nabuco tinha se separado do marido Antônio Carlos de Almeida Braga - e estava casada com Fernando Pedreira. Então Pedreira era naquele momento concunhado do José Luís. Eles conviviam, naturalmente, e o Fernando Pedreira fazia referências elogiosas a meu respeito.

Moacir Padilha era o diretor de redação do Globo, mas não se sabia com câncer terminal. Eu devia ir no começo de 72 para SP ser chefe de redação do Estadão. Tudo já estava acertado com o Pedreira. Aí o Castelo entrou uma dia na minha casa para dizer: "Olha, o Roberto Marinho está te convidando para ser diretor do Globo". Virei para o Castelo e disse: "Por que não você?" E o Castelo: "Porque ele não me convidou." O Zé Luiz tinha me indicado. E o Castelo reforçou: "Você prefere ser segundo em São Paulo ou primeiro no Rio?". A resposta era e foi óbvia.

P - Qual era a sua imagem do Globo, naquele momento?

R - Era o grande jornal do Rio, sem dúvida nenhuma, mas estava posicionado como um jornal de apoio irrestrito ao regime. Em Brasília, a marca era que o Globo tinha apoiado em editorial a invasão da universidade... isso causou uma mágoa muito grande no público, sobretudo entre os moços, os universitários.

P - E como foram os contatos iniciais com o Dr.Roberto?

R - Na primeira vez, estivemos apenas os dois, na casa do Cosme Velho. Ele queria me ouvir, saber o que eu achava que deveria ser um jornal moderno, ágil... Me chamou para uma nova conversa em que estava o Rogério (Marinho, irmão de Roberto)

P - E ao "fechar negócio", o que ele disse?

R - "Eu não agüento mais levar tanto furo!" (sorrisos) Embora ainda estivéssemos no apogeu da ditadura, o Dr.Roberto já tinha a percepção de que aquilo ali não ia durar. Era ruim. Começamos então, eu, o Zé Augusto Ribeiro e o Henrique Caban, a mexer no jornal tendo como meta principal conquistar a mocidade, a universidade. O caderno de vestibular foi idéia do Caban, assim como o suplemento do Vestibular.

P - E os Jornais de Bairro também, não?

R - Não. Bairros foi o Dr. Roberto. E não foi uma coisa assim, "vamos planejar um jornal assim e assim..." É: "quero em uma semana" (risos). "Caderno de TV? Sim, quero para domingo." E saiu numa semana, e saiu no Domingo.

P - Como ele passava o seu desejo, suas intenções?

R - Ele nunca foi de ditar diretrizes. Conversava horas comigo, contava como foi com o pai, como era isso, como era aquilo. E ali eu percebia como era a personalidade dele, bom de lidar, humilde, atento, receptivo. Quando se estabelece uma relação de empatia as coisas vão bem.

P - Acha, mesmo, que para corrigir os erros de "Notícias do Planalto", livro de Mário Sérgio Conti, você teria de escrever outro cartapácio ainda maior?

R - Isso é um exagero meu, né? Na verdade, 80% do que está escrito ali coincide com o que a gente acha que aconteceu. O erro fundamental é citar as fontes e, no final do livro, as pessoas com quem conversou. Você como leitor presume que toda referência a uma pessoa que tenha sido fonte tenha sido checada, o que não ocorreu. Digo que não ocorreu comigo. Ele cita um episódio engraçado, no livro, em que o Dr.Roberto pergunta a mim o que achei sobre um texto dele. "Posso ser franco?", pergunto no livro. Resposta: "Mais ou menos!"

É engraçado mas não foi comigo. Foi com o Merval (Pereira Filho, atual diretor de Redação do Globo), o autor não voltou a mim para verificar se tinha acontecido. Além disso, deu um tratamento injusto ao Armando Nogueira, o verdadeiro autor de uma barreira interna contra toda a poluição no telejornalismo - e as pressões militares - e só os panacas não sabem o terror e a resistência na Globo durante a ditadura. A tentativa permanente de se noticiar as coisas como se passavam, aqui dentro, no tempo da ditadura. Tentar driblar a censura. Diretas já, a pressão que o Dr. Roberto sofreu para não dar destaque foi uma coisa louca...

P - Quem vai escrever a biografia do Dr.Roberto - você?

R - Não tenho esse convite, não receberei e nem aceitarei, não sou biógrafo. Nem pensar, não tem lógica, não aceitaria, não aceitarei. Me faltaria isenção.

P - E a sua própria biografia?

R - Não tenho biografia. Toda autobiografia é um grande equívoco. Porque é cheia de omissões e bastante incompleta, já que nunca li a narrativa da morte do autor, escrita por ele mesmo.