Noite de Autógrafos
O título do livro recém-lançado é o título de um artigo. Lírio é uma flor branca que simboliza a pureza, e aí é ironicamente no sentido de ingênuo. Foi a minha primeira e última noite de autógrafos! Fica-se muito nervoso, acha-se que não vem ninguém! Todos colocam os nomes naqueles papeizinhos, e você tem que ler, mas disfarçadamente, porque todo mundo quer ser reconhecido. Vendeu 150 exemplares, mais ou menos.
Lama, Buraco, Capim
Carlos Lacerda era vizinho nosso e uns amigos meus arranjaram de fazer um estágio lá na Tribuna de Imprensa; me propuseram ir junto, e eu fui. Ao fim do ano eles foram embora, hoje ganham rios de dinheiro como advogados e eu fiquei jornalista até hoje -- não larguei! Saía junto com um repórter, acompanhava, chamava-se “lama-buraco-capim”. Você vai à rua, ouve queixa de morador, da população, faz enquete... Havia três tipos de profissionais: funcionário público fazendo bico; político e escritor esperando começar a carreira. Eu não era nenhum dos três, era um garoto tentando descobrir o que queria fazer da vida.
Fiquei até 1961, com um intervalo em que fui estudar na Columbia University, nos Estados Unidos. Valeu muito a experiência, nem tanto o curso, muito elementar. Acho que aproveitei mais a cidade... Voltei para a Tribuna e ela foi vendida. Vim para O Globo em 1961-62 e passei um ano e meio como chefe dos copidesques. Em 1963, Prudente de Moraes Neto me chamou para chefiar a sucursal do Estadão, onde fiquei até 1968, quando Odylo Costa Filho me convidou para chefiar a sucursal da Veja. Era a inauguração da revista. Ela demorou muito a dar dinheiro, mas foi lançada com grande entusiasmo, em outubro de 68 -- governo Costa e Silva. As coisas pioraram com o AI-5, em 1969, o derrame do presidente, a Junta Militar.
Começaram com a idéia de fazer matérias abrangentes demais -- tudo sobre cada assunto. O texto parecia ser escrito por uma pessoa só. As sucursais mandavam apenas relatórios e era muito ruim... O primeiro cara que começou realmente a mexer na revista, a dar uma sacudida, foi o Mino Carta, para mim um bom diretor de revista.
Quando comecei no Globo, em 1961, a sala do Dr. Roberto era contígua à redação; quem ficava na redação eram Ricardo e Rogério (Marinho). O Alves Pinheiro já estava de saída, mas ainda era o chefe de reportagem, mandava praticamente em tudo. À noite fechava-se uma edição nacional, pequena, sem anúncio, que era mandada para fora do Rio, e às 6 horas da manhã entrava outra equipe, que acrescentava os anúncios e as notícias da manhã.
O Globo, segunda vez
Voltei em 1974, como subeditor chefe. Evandro Carlos de Andrade, Henrique Caban e José Augusto estavam começando e, para mim, o que marcou o início da decolagem do Globo nessa fase foi o lançamento da edição de domingo. Nós lançamos a edição de domingo e o JB lançou a edição de segunda-feira. A nossa era e é muito forte no futebol; eles vieram com a idéia de não fazerem uma segunda-feira tão forte no futebol... Assim, não perdemos na segunda e ganhamos muito no domingo.
Editor de Opinião
Hoje em dia sou muito ajudado pelo fato de que existe um Conselho Editorial das Organizações Globo, que se reúne todas as terças-feiras. Nestas reuniões a gente discute diversos temas. Atualizo-me, fico sabendo o que pensam os acionistas sobre determinados assuntos. Não temos qualquer compromisso de falar bem ou mal do governo, nem do estado, nem de municípios, nem do país. Em geral, freqüentemente, falamos mal. (risos)
Tenho três editorialistas e o Luis Paulo Horta, que é o meu substituto imediato. Os outros são o George Vidor, o Berilo Vargas e o Ronald Fucs. Faço uma reunião todos os dias às 15 horas e a gente decide os assuntos. Freqüentemente tenho uma idéia que é derrubada.. Na Economia, toda hora o Vidor me convence de que uma idéia que eu tenho não é boa.
Costumo pedir para outros lerem as coisas que eu escrevo... Acho que o autor é o pior revisor do próprio texto. Você lê aquilo que achava que devia escrever!
Quando assino, gosto de escrever qualquer assunto referente à profissão... Escrever contra! (risos) A coisa mais chata do mundo é escrever a favor. Escrever contra é muito mais fácil e mais gostoso porque eu gosto de colocar um pouco de humor.
A arrogância é a nossa armadilha mais presente, porque é muito grande o poder que temos. A arrogância é um perigo. Já existe um certo auto-policiamento, nesse sentido, inclusive porque o leitor começa a reagir em relação ao jornal como se porta o consumidor em relação a qualquer outro produto: reclama!
Jornalismo on line
Não é verdade que ele é o espelho do jornal impresso. Nele, as notícias estão mais próximas do rádio, a notícia é mais seca, o mais direta possível. No jornal, somos um sistema de dar notícias distanciadas da hora em que elas acontecem, com o máximo possível de interpretação e explicação. Trabalhamos com mercadorias inteiramente diferentes! O leitor vai julgar o Globo on line pelo critério da velocidade, e vai julgar o Globo (impresso) pela sua capacidade de apresentar o assunto de uma forma mais ampla e profunda.
"Algumas"
Acordo às seis e meia e tomo café lendo os jornais. Na leitura do Globo, levo em geral duas horas e meia. Marco os erros a caneta, depois vou para o computador. O Manual de Redação, que derivou do "Algumas", nos ensinou onde tínhamos pontos fracos, pontos fortes e áreas nebulosas... Às vezes me irrita um pouquinho, sim, a repetição de erros. Mas se todo mundo escrever certinho, eu perco o meu emprego! (risos)
O Jovem Jornalista
Está entrando numa profissão muito difícil, que tem o mercado de trabalho muito pequeno e que é extremamente gratificante para a minoria que consegue fazer o que gosta. E nem sempre você vai fazer o que gosta...