Ele se formou pelas mãos de Evandro Carlos de Andrade, figura que admira acima de todas as outras - e menciona Élio Gaspari como um dos mais brilhantes jornalistas da sua geração. Clique aqui para ler os depoimentos de ambos sobre Merval. A propósito da influência de Evandro, dois temas vieram à tona: teria Merval herdado o seu propalado autoritarismo? E teriam fundamento os boatos que o indicam como o seu possível sucessor na TV Globo? A resposta a ambas as perguntas foi negativa. Mas para conhecê-las em detalhes, continue a ler...
P - Vamos começar do começo? Você é Merval Pereira Filho. Quem era seu pai? Onde você nasceu? Por que a opção pelo jornalismo?
R - Nasci no Rio de Janeiro em 49. Meus pais são maranhenses e se encontraram no Rio por acaso: ele era médico e minha mãe, filha de um senador pelo Maranhão, trabalhava no Instituto do Sal que existia aqui no Rio, que era a capital e onde funcionava o Senado.
P - Nenhum jornalista ou escritor na família?
R - Bem, tinha um tio, que conheci só de ouvir histórias, que foi editorialista de um jornal lá no Maranhão. E meu avô, Clodomir Cardoso, além de político, era escritor. Sempre gostei muito de ler. Meu pai tinha uma biblioteca muito boa. Quando garoto, li toda a coleção do Eça de Queiroz, por exemplo. Clássicos franceses, muito Machado de Assis e assim por diante. Lia muito, gostava de ler e escrever. Depois veio a época dos grandes cronistas brasileiros como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga. A gente lia todos, discutia. Escrevia umas crônicas, e, claro, sim, fiz o jornalzinho da escola, como todo mundo. Mas nunca tinha pensado em fazer Jornalismo. Fiz vestibular e cursei um ano de Direito.
P - Por quê?
R - Era a opção de quase todos na época. Estudei muito tempo no São Vicente de Paulo e lá não havia o clássico, só o científico. Tentei acompanhar a minha turma que foi para o científico mas não agüentei física, química, essas coisas. Então fui para o Andrews, fazer o clássico. Lá, todo meu grupo foi fazer Direito e eu também. No ano em que passei no vestibular, meu pai me disse: "A partir dos 18 anos tem que trabalhar, não quero saber em quê, escolhe o que você quer fazer que eu arranjo." Naquela época, estágio era fácil e era arranjado. "Quero trabalhar em jornal", respondi, meio para escapar da pressão.
P - E assim começou a carreira?
R - É que antes, como eu não me definia, meu pai arranjou um trabalho num banco. Coloquei um terno, fui para a cidade, olhei o banco e nem me apresentei para o sujeito. Voltei. (risos). Então fui estagiar no Diário de Notícias. Um jornal que tinha sido importante, mas estava decadente. Quase desisti de Jornalismo! Era um pardieiro horroroso, na rua do Riachuelo, onde hoje funciona a Folha Dirigida.
P - Mas por que tão horroroso assim?
R - Uma das imagens que nunca saem da minha cabeça é a da cantina do Diário de Notícias, ficava no subsolo; você descia por uma escadinha de caracol velha e tinha uma cantina lá, horrorosa. Eu sempre ía jantar, comer um sanduíche, e tinha um bando de velhinhos tomando cafezinho ou uma média, e havia um pote cheio de biscoitos tipo cream-cracker: eles pegavam um, molhavam no café e comiam. As camisas todas puídas no colarinho, as gravatas besuntadas... Eu olhava aquilo e pensava: "Meu futuro é isso aí, não vai dar certo!" (risos)
P - Como superou esse choque inicial?
R - Não superei. Fiquei lá uns seis meses. Um dia descobri que meu editor não recebia salário havia não sei quanto tempo, e que vendia anúncio e ganhava uma porcentagem. "Isto não vai dar certo", pensei de novo. (risos) Um dia saí, desisti sem nada em vista!
P - E seu pai?
R - Voltou a insistir. Me deu um contato no Globo. Ligou para o doutor Rogério (Rogério Marinho, vice-presidente do GLOBO) e vim fazer um estágio aqui em 1968. Moacir Padilha era o diretor. Leonidio Barros era o chefe da redação, havia o Armindo Blanco e o Carlos Tavares - e poucos outros, era basicamente isto. Aconteceu então uma coisa engraçadíssima. O Barros era famoso como chefe. Ele me recebeu e foi logo dizendo: "Merval e Leonídio são nomes de crioulos. Como nós somos brancos, eu me chamo Barros e você Pereira". Só que o Barros era mulatíssimo. Eu pensei de novo "Isso não vai dar certo". Mas fiquei, e durante muito tempo só fui chamado de Pereira. O prédio do Globo era outro pardieiro, uma redação velha em todos os sentidos - havia apenas eu e mais duas pessoas com idades em torno de 18 e 19 anos, e poucos jornalistas full-time: a maioria era de funcionários públicos que faziam bico aqui. O salário era muito baixo, naquela época não dava para viver de jornalismo.
P - Mas a Imprensa brasileira era toda assim, na época, não é verdade?
R - Naquela época a profissão não era regulamentada, não se exigia nível universitário, havia um baixo grau de profissionalismo de ambas as partes, patrões e jornalistas. O Jornal do Brasil já era mais organizado profissionalmente, o Estadão também. O JB era o grande jornal na ocasião, o sonho de todo mundo. Acabei realizando o sonho quase 25 anos depois: fui editor-chefe do JB entre 91 e 92. Não era mais aquela potência, mas ainda tinha influência. Bem: fiquei na Reportagem Geral muito tempo, até 1971, quando o Evandro (Carlos de Andrade) chegou. Antes dele, o (Henrique) Caban entrou para chefiar a redação e começou a falar em reorganizar, dividir os repórteres em categorias etc.
P - Lembra de alguma matéria em especial desse período?
R - O jornal resolveu fazer uma série de reportagens sobre os dez anos da Sudene. Era pegar um carro e sair viajando pela área da Sudene com um fotógrafo. Ninguém quis ir, eram 40 dias de viagem, e eu me ofereci. Foi interessante para mim e fiz uma série enorme de matérias, as minhas primeiras matérias assinadas.
P - Ficaram boas?
R - Algumas, muito boas. Se pegar hoje, você vai ter sérias críticas, mas na época marcou - foi uma coisa diferente para quem estava começando e não foi um desastre, tanto que eu continuei no jornal... (risos) Foi muito marcante conhecer aquela parte do Brasil. Foi muito bom, também, para o meu relacionamento dentro da redação.
P - A propósito, como foi, em geral, a sua relação com os colegas?
R - Nunca tive nenhum tipo de problema. Ao contrário, o que eu mais queria era aprender a fazer jornal e ali estavam as pessoas que sabiam fazer. Dei sorte, aí sim, de pegar a profissão numa fase em ascensão, de início de profissionalismo mesmo, de reorganização e pelas mãos certas - que foram as do Evandro. Ele chegou, eu era repórter, ele não tinha nenhuma referência sobre mim.
P - Como foi o primeiro contato com ele?
R - Uma vez fiz uma matéria de polícia, não lembro a data, um caso muito interessante que aconteceu aqui no Rio - naquele castelinho no Flamengo que hoje é um centro cultural. Aquilo era um inferno, uma cabeça de porco, só moravam hippies, mendigos, era uma mistura danada. Um hippie argentino foi acolhido por um casal e acabou assassinando um dos dois, ou os dois, já não me lembro, depois de um relacionamento complicado, com drogas e sexo grupal, deu uma confusão tremenda. Pois essa matéria foi ótima para mim porque um dia Evandro entrou na redação, perguntou quem tinha feito a matéria e me cumprimentou.
O engraçado foi quando ele me chamou para trabalhar no Esporte. Me fez a seguinte pergunta: "Você acha que todo juiz de futebol é ladrão?". "Acho!", respondi sem pestanejar. Eu sempre fui um torcedor fanático do Fluminense - hoje com o ânimo um pouco arrefecido pela realidade. Então ele começou a rir. "Eu queria te chamar para cobrir Esporte, mas deste jeito não vai dar." Começamos a falar sobre futebol, ele tinha feito Esporte no Diário Carioca. E me disse que, acompanhando a politicagem no futebol, estaria aprendendo para mais tarde acompanhar a política nacional. Deu certo.
P - E você? Gostava, jogava alguma coisa?
R - Gostava, mas jogava muito mal. Fui fazer Esporte, acho que em 1974.
P - Vamos dar uma paradinha? Você saiu do Globo em 73. O que você foi fazer na Europa?
R - Na verdade, fui porque tinha me separado e queria dar umas voltas. Fui morar em Londres, fiz um curso de gravura em metal.
P - Chegou a produzir alguma coisa?
R - Pintei e fiz gravuras por algum tempo, mas parei. Penso muito em voltar, tenho algumas coisas em casa, mas nunca mais tive tempo. Adoro pintura, mato minha incapacidade de realizar lendo muito sobre pintura, indo a museus, comprando quadros. Mas um dia volto a pintar. Quando estudei em Stanford, por exemplo, aproveitei para fazer um curso de História da Arte.
P - Fez alguma coisa para o jornal, durante a viagem?
R - Quando fui para a Europa, o José Augusto Ribeiro, secretário de redação, perguntou se eu não queria ficar de correspondente. Eu não estava a fim, porque queria espairecer; e depois não sabia falar inglês. "Não vou me comprometer com uma coisa dessas", pensei. Na verdade, uma das coisas que me animaram a viajar foi aprender inglês, abrir a cabeça, ver coisas. Então resolvi que era bom ficar na minha e só voltei um ano e meio depois, desempregado e com minha primeira filha para nascer.
P - Bela situação...
R - Pois é. Então vim aqui e falei com o Evandro e o Caban, e retomei, acho que primeiro na Geral. Eu usava cabelos compridos, bem compridos, como muitos jovens da época. Caban me olhou e me mandou logo fazer uma reportagem numa delegacia. Fui tratado com tanto preconceito pelos policiais, que me olhavam como se eu fosse hippie e não jornalista, que entendi o truque do Caban. Em vez de me mandar cortar o cabelo, me fez sentir na carne os problemas que teria. Resultado: cortei o cabelo imediatamente. Logo depois fui para o Esporte. Foi aí, na verdade, que fiz Esporte, não antes.
P - E por pouco tempo, porque logo depois foi para Brasília, certo?
R - Em 1974, o Evandro me indicou para ser o repórter credenciado no Palácio do Planalto em Brasília. Achei legal ele ter intuído que eu tinha potencial para fazer, embora fosse um repórter de esportes e não demonstrasse, à época, nenhum pendor especial pela política. E gostei muito de ter tido coragem de aceitar. Senti na hora que era uma oportunidade, em todos os sentidos. Acho que foi uma das duas ou três decisões fundamentais que tomei na profissão.
P - E como foi a adaptação a Brasília, à cidade?
R - Muito bem. Gosto muito de Brasília, já morei lá umas duas vezes.
P - E o trabalho?
R - Dei muita sorte, porque quando o Geisel assumiu, havia o projeto de abertura e o Humberto Barreto, que era o assessor de imprensa, viera aos jornais pedir que mandassem pessoas qualificadas para cobrir o Palácio. Na verdade, a imprensa era parte fundamental do projeto do Golbery. Eles usaram muito os jornais, as revistas, para criar fatos consumados, para começar a discussão sobre a abertura política.
O Humberto Barreto era uma fonte espetacular, uma pessoa muito bem informada, uma espécie de filho adotivo do Geisel. Fiquei muito próximo a ele. Tínhamos contatos diários, longas conversas e tive acesso a muitas informações, acabei conhecendo o Golbery, o Heitor Ferreira, que foi secretário particular do Geisel e do Figueiredo, uma peça política importante naquele esquema... Foi um período muito fértil. Tanto que acabei ganhando um Prêmio Esso com uma série de reportagens que escrevi com o André Gustavo Stumpf sobre a sucessão do Geisel. E a série acabou virando um livro que é considerado uma das referências para os estudiosos daquele período. O livro ainda hoje é citado tanto por estudiosos brasileiros, como o Ronaldo Costa Couto, quanto por brasilianistas como o Thomas Skidmore.
P - E você assumiu uma chefia muito jovem... como foi?
R - Em 1977, eu tinha 27 anos e assumi a chefia da sucursal em Brasília, ainda no governo Geisel. Não foi difícil, a sucursal era excelente. E eu era repórter, o fato de um repórter assumir a chefia já foi uma coisa muito boa para o grupo. Era um grupo que se dava muito bem, tinha uma ótima convivência. Outra coisa: eu tinha um contato muito forte com o Globo, no Rio. Conhecia todo mundo, bastava pegar o telefone. E tinha um acesso muito grande ao Palácio, que na época era a grande fonte de Poder e de informação.
P - Quem foram os políticos que mais te impressionaram?
R - Havia no Congresso um grupo de políticos importantes: Petrônio Portela, um político extraordinário que costurava os acordos com a sociedade civil como ninguém; o hoje vice-presidente Marco Maciel, empenhado sempre na transição do autoritarismo para a democracia; o deputado Nelson Marchezan; e na oposição, o Ulysses Guimarães símbolo da resistência à ditadura; o Franco Montoro, Paes de Andrade, Thales Ramalho... e o pessoal do Palácio. Ali se encastelavam também os inimigos do Golbery: o General Hugo Abreu, Chefe do Gabinete Militar, foi uma boa fonte do outro lado, por exemplo.
P - Nesse período você cobriu o Palácio também para a TV Globo, certo?
R - Quando fui para Brasília, a idéia era que os repórteres especiais fizessem isso. Fiquei um ano trabalhando para a TV, ganhando o salário da televisão, e não conseguia entrar no vídeo, porque a Alice Maria achava que meu bigode era torto. (risos) Ela dizia que eu tinha dificuldade na televisão. Com esta fama de que a Alice não gostava, ninguém me colocava no ar. Eu tinha boas notícias, passava, mas não aparecia. Hoje somos amigos, ela já desistiu de consertar meu bigode e acha até que eu tenho boa desenvoltura na televisão. (risos)
P - Ficava caro, não?
R - Pois é. Aí o Costa Manso, que trabalhava no Globo, ficou só na televisão. Ele era muito desenvolto, foi o primeiro repórter a ficar famoso. E eu fiquei só no Globo.
P - Como você se sente diante das câmeras e, aliás, diante das pessoas em situações públicas?
R - Sou muito tímido. Na minha relação pessoal, social, não tenho problema. Difícil é falar em público e, na televisão, resolvi esquecer que tem gente do outro lado da câmera. (risos) Mas uma vez eu estava sentado para gravar um comentário para a TV Globo nas eleições de 82 e me avisaram que seria ao vivo. Um problema técnico qualquer aconteceu e o programa, que era gravado todo dia, ia direto naquele dia. Pensei que fosse morrer, tive a impressão de que iria desmaiar no ar, não lembrava sobre o que iria falar... Terminou e eu estava ensopado de suor! Mas, mesmo com dificuldade para falar em público, aceito convites para toda palestra que seja importante para O Globo. E acaba que você acostuma.
P - Falamos do repórter político mas eu esqueci de perguntar sobre as suas posições políticas, pessoalmente.
R - Na faculdade, nunca participei de política estudantil diretamente, não era um ativista. Sempre tive posições mais próximas da esquerda, mas sem grandes envolvimentos. Minha família não era de esquerda, ao contrário, mas era contra a ditadura. Meu avô era da UDN, um político conservador, mas legalista. O Sarney, por exemplo (ex-presidente José Sarney), bem mais moço, começou na política com ele.
No Globo, tive contato com jornalistas ligados ao Partido Comunista na época, o Milton Coelho da Graça, o Milton Temer (hoje deputado pelo PT), o Caban. E também com colegas que participaram da Guerrilha do Araguaia, ou mesmo da luta armada, que eram combatidos pelo PCB. Na época em que vivi em Londres, conheci vários exilados políticos. Sempre votei no MDB, depois passei a votar com o PSDB.
Mas na época em que cobria o Palácio do Planalto, por exemplo, sentia que participava de um momento importante e tinha a exata noção de que o projeto de distensão política era fundamental para o país.
P - Você deve ter conhecido o Presidente FHC quando morou em Brasília.
R - Fernando Henrique eu conheci quando ele chegou em Brasília para assumir no Senado como suplente do Montoro. Isso em 83. A primeira entrevista como senador ele deu a mim, para as páginas amarelas da Veja. Até hoje ele cita essa entrevista como tendo sido importante na sua vida política. Mais tarde, ainda senador, ele foi uma das pessoas que fizeram cartas de recomendação para a bolsa que ganhei em Stanford. Ele foi professor de lá, de modo que a indicação foi importante.
P - Como foi essa passagem pela Veja?
R - Em 1982 eu era editor de Política (do Globo, no Rio) e vagou o cargo de editor-chefe adjunto. Éramos três ou quatro editores que potencialmente podiam assumir o cargo. Pensei: "dois desses eu aceito, acho que merecem, têm condições; mas se for fulano eu não aceito" - e foi fulano. Então resolvi sair.
P - Você não quer dizer como se chamava o "fulano"?
R - Não quero porque ele já morreu. Comecei a ligar para os amigos, me colocando no mercado, e aí o Elio Gaspari me levou para a Veja em Brasília, onde fiquei um ano chefiando a sucursal. Depois fui para São Paulo, ser editor nacional, e em seguida voltei para o Rio para ser chefe da sucursal - isto já em 85. Dois anos e meio de Veja.
P - Eu me lembro de você ter comentado uma vez que gostaria de ser correspondente internacional...
R - É verdade, um projeto que sempre tive e ainda tenho... E nessa ocasião da Veja, que eu comentava, cheguei a conversar com o Elio, porque ia vagar o cargo de correspondente em Paris. Mas acabei vindo para o Rio, chefiar a sucursal da Veja, e de lá voltei para o Globo como editor-chefe adjunto, em 85. Fiquei aqui até 91 quando, já como editor-chefe, ganhei a tal bolsa para a Universidade de Stanford.
P - Estudou o quê, exatamente?
R - Eu sentia necessidade de um tempo para estudar mais organizadamente. E essa era uma boa oportunidade. A Knight Foundation financia um curso para jornalistas, estrangeiros e americanos, na Universidade de Stanford: você pode estudar qualquer coisa, menos jornalismo. A idéia é dar um tempo para que o jornalista se especialize. Escolhi Política Internacional – meu projeto foi sobre os Estados Unidos como potência mundial única, a mudança no cenário mundial com a crise soviética. Foi um ano de muito estudo, muita leitura, e muito crescimento. Outro passo fundamental na minha vida e na minha carreira.
P - Na sua função atual você tem de ser tanto jornalista como administrador. Como concilia as duas coisas? Há momentos em que o jornalista precisa ser deixado de lado?
R - Ao contrário, não deixei de ser jornalista não. É por ser jornalista que fui indicado para acumular a diretoria de jornalismo com a diretoria de unidade do Globo, cuidando também da circulação do jornal e de seus resultados. O que acho interessante nesta experiência de jornalista fazendo gestão de empresa é que os jornalistas sempre criticaram o lado comercial das empresas jornalísticas. A decisão de colocar jornalistas para cuidar do negócio é muito inteligente: primeiro, porque você sinaliza para o mercado qual é o objetivo principal desta empresa; segundo, você garante que o jornalismo não será afetado pela parte comercial.
P - Você pode receber um anunciante do jornal que vem reclamar de matérias jornalísticas...
R - Sim, e deixo muito claro que a intenção não é prejudicar ninguém, mas que as notícias têm prioridade. Só garanto que a isenção do Globo será rigorosíssima. A maior possível.
P - Como funciona a estrutura de Unidades de Negócios?
R - A idéia é que a unidade de negócio seja responsável pela circulação e redação, além de cobrar resultados da área comercial. Eu sou do Globo, Renato Maurício Prado, do Extra, e o Amaury Mello, que agora está na Globo.com, cuidava dos novos meios. Estamos procurando um caminho que coloque o jornalista com visão de negócios sem perder o foco jornalístico. Porque obviamente é uma besteira fazer um jornal que vai acabar porque não dá lucro. Mas o lado comercial não pode se sobrepor ao jornalístico, sob pena de você perder a credibilidade, como aconteceu recentemente no caso do Los Angeles Times, um caso emblemático e que, graças a Deus, terminou em fracasso do Mark Willes (risos).
A esse respeito, gosto de contar uma história do Abe Rosenthal, famoso editor do New York Times. Estando em uma festa em Nova York, ele foi se irritando com os elogios que ouvia sobre o New York Herald Tribune. "Esse sim é um grande jornal, com estilo", dizia um. Outros se referiam a grandes reportagens publicadas pelo Herald. Até que o Rosenthal pegou uma nota de 1 dólar, deu ao falastrão e pediu: "Desce ali na esquina e compra um jornal desses para eu ver". O cara, espantado, respondeu: "Ora, Abe. Você sabe que o Herald não existe mais". Ao que Rosenthal respondeu: "Então bom é o meu, que continua saindo todos os dias".
P - Mas como explicar as diferenças que existem entre administrar um produto como jornal e um outro, digamos, como carros?
R - Essa discussão nós temos muito aqui na diretoria. Ela é formada por cinco engenheiros e eu e Renato, que somos jornalistas. Há sempre choques de interpretação, de visão. A visão de jornalista é diferente da de outros. Temos um diretor financeiro, por exemplo, que vem justamente da indústria automobilística. Mas é claro que tem muita coisa parecida nas empresas, e a gente tem que aprender com a prática dos outros. Exemplo: se você está acompanhando a evolução do preço do papel no mundo, e a tendência, como a de hoje, é de alta no mercado internacional, você não tomará decisões que possam colocar o negócio em risco no ano que vem.
Se você entende que o horário de fechamento é importante porque um atraso de dez minutos impacta uma série de coisas na linha de produção, você fecha na hora o jornal. Se acha isto uma bobagem ou não entende, seu jornal não vai chegar na hora ao leitor. E, na outra mão, se você consegue passar para os outros gerentes que o produto jornal é especial, consegue que a empresa funcione melhor.
Exemplo: no final do ano nós fizemos uma foto em Copacabana, convidamos os leitores a se unirem numa homenagem ao Ano 2000, que estava chegando. Foi uma idéia ótima que a redação teve, e que o pessoal do marketing apoiou. O Industrial disse, primeiro, que não dava para fazer, a foto iria ficar sem registro, era uma primeira página dupla. Se o diretor do Industrial não tivesse a sensibilidade para o fato de que a qualidade podia até ficar um pouco pior, mas que o sentido jornalístico era a alma da questão, a gente não teria feito.
P - E a administração dos recursos humanos, quando se trata de jornalistas? Em quê é diferente?
R - Jornalista por índole é insubmisso, é um ser inquieto permanentemente e você tem que incentivar esta inquietude. Jornalista tranqüilo, que acha que a vida é boa, que está tudo bem, que não se angustia, que não desconfia, não descobre fatos novos ou pelo menos não tenta descobri-los. Esta coisa de disciplina é diferente em redação. Nós na redação crescemos discutindo, toda decisão é tomada depois de muita discussão. Ao mesmo tempo, você tem um prazo para a discussão, senão seu jornal não sai - e aí tem que ter uma disciplina rígida. Tomam-se mais decisões em uma redação de jornal do que em outras empresas todos os dias. Decisões que são cruciais, éticas, sutis, de cunho moral, político. E agora, com a Internet, tudo em tempo real.
P - Dizem que você é tão autoritário quanto o Evandro... (sorriso)
R - Já fui um chefe muito autoritário. Também, pudera, tive bons mestres. (risos) A pessoa que mais influiu na minha vida profissional foi o Evandro. E o Elio Gaspari, outra de minhas admirações, também é um autoritário de marca maior. Mas os tempos eram outros, essa era a prática nas redações. Hoje reconheço que é impossível comandar um grupo minimamente capaz na base do autoritarismo. Prefiro conversar, embora às vezes me arrependa desse democratismo e tenha vontade de exercer o poder com mais rigor. (risos) De vez em quando tenho uma recaída. Às vezes é preciso.
P - E o Evandro?
R - Ele é muito passional às vezes, assim como eu. É um traço dele. Mas a irritação logo passa. E as pessoas que o conhecem, mesmo as que o criticam, têm admiração por ele ter a capacidade de mesclar um senso de autoridade muito forte com uma dose de bom-senso grande. O Evandro é uma pessoa especial, tem uma capacidade fenomenal de ser amigo, é de uma generosidade incomum, e, ao mesmo tempo, é capaz de ferir profundamente. Já disse que foi a pessoa que mais me influenciou profissionalmente. Mas nossa relação vai além do profissional. Também na vida pessoal Evandro teve grande influência na minha formacão. E sempre pelo exemplo.
P - Volta e meia há boatos de que você o sucederá na TV Globo...
R - Primeiro, acho que o Evandro não sai tão cedo, ele está muito bem, cheio de planos. Reformulou o jornalismo da TV Globo, o Jornal Nacional passa por uma fase excepcional de furos jornalísticos. Agora mesmo até o cenário ele mudou. Além disso, não existe nada de automático, nenhuma linha ligando a direção de jornalismo do Globo com a da TV. Ao contrário, o caso do Evandro foi uma exceção. Ele é um caso especial. É muito simplista achar que por que aconteceu com o Evandro, acontecerá comigo também.